Pessoal

Adeus…

Tô com aquela sensação estranha de quando acontece uma coisa pela primeira vez na vida.

Hoje a tarde, minha mãe me ligou pra avisar que meu tio havia falecido. Na hora, eu simplesmente não acreditei, abracei o Heron aos prantos e falava “Não é possível, hoje cedo ele estava bem!”

No caminho pra casa, fui me convencendo que era verdade, que minha mãe não ia inventar uma coisa dessas. E chorava. Não porque ele foi; nessas horas meus conceitos espíritas me confortam, e eu só podia orar pra que ele fosse para um lugar bonito, para que finalmente ficasse em paz. Eu chorava por lembrar os pequenos detalhes do dia-a-dia que não vão mais acontecer.

Meu tio era excepsional, tinha a cabeça de uma criança de 5 anos. Era uma graça: esperto, brincalhão, sempre contente, independente. Vivia procurando os defeitos do meu pai (tipo colocar “duas pizzas no prato” ou pegar batata com o “garfo-que-dá-nojo” – o próprio garfo), como o irmão que era.

Ele era engraçado, é iluminado, o abraço dele fazia todo meu estress e tristeza irem embora. Eu respirava, eu ia longe quando ele me abraçava. Quando chegou (em 2000), tinha mania de me pegar no colo (pode?!), porque lembrava de mim criança ainda. E ele juntava lixo (esses papéis de propaganda), e minha mãe ficava brava de brincadeirinha e ele ria… E tantas outras coisas!

Mas do mesmo jeito que tinha esse coração maravilhoso, tinha o mesmo coração fisicamente fraco. Fez ponte de safena, depois colocou um marca-passo, e tava bem! Ele tava bem! Eu olhei pra ele hoje cedo e pensei “Poutz, você é a pessoa melhor de saúde nessa casa”. Fim de semana, o Heron falou “Ele ainda vai cuidar de vocês!” porque ele tava bem!

Vai ver que no fundo, não super estava. Caiu hoje, escorregou e caiu na rua. Com o susto, o marca passo deu choque. Um, outro, e não parou. Daí meu pai levou ele pro hospital. Chegou com vida… mas não resistiu.

É estranho. Tem muitos conceitos meus que me confortam, mas sei que os próximos dias serão muito estranhos e solitários. Ele vai fazer muita falta. Todos os nossos horários eram baseados nele. Tinha o quarto dele, o lugar dele na mesa, o chá que a gente fazia pra ele e todas as memórias:

“O Perci gosta do pombo, Perci vai comer tudo pombo assado e temperado. Comer pombo assado amaciante.” (Perci é meu pai e ficava bravo de brincadeirinha quando meu tio imitava o barulho dos pombos pra gente falar que tinha pombo no telhado)
“A Marta fez xixi na Rita, a Marta é porca!” (quando eu tinha 1 ano de vida)
“Tá lavando a uva (sempre nos almoços de sábado); Marta lavou a cabeça da boneca com xampú?” “Lavou, e apanhou na bunda!”.
“Marta caiu com a cabeça a bola do queixo? Lá na perspectiva construção, na caixa da água!” (quando eu caí na lage e raspei o queixo no chão jogando bola)
“A mulher da TV tá sem blusa nesse vento gelado!” “Ela vai ficar doente!”
Ele pegava toalha, ou pote de toddy, segurava no colo e olhava pra mim. Daí dizia “Nenem vai fazer xixi na Marta?” “Vai nada, vai fazer xixi no Marildo, vai ficar tudo molhado!”
Fora quando ele sentava no colo da minha mãe, quando ele só apontava pro prato do meu pai pra dizer que tinha duas pizzas no prato, ou quando ele ia dormir e meu pai ficava dizendo boa noite sem parar, e ele dizia “Boa noite uma vez só!”

Não sei quantos diálogos assim tinha. Eram vários e isso passar vai ser o mais difícil, mas também são lembranças quentinhas que sempre vão me fazer sorrir.

Me sinto feliz, porque eu conheci uma pessoa que, eu tenho certeza, nunca fez mal pra ninguém.

Descansa em paz, querido… Que você seja tudo de mais feliz na vida que vem, porque pagou todos os seus pecados, foi uma pessoa maravilhosa e isso ninguém pode tirar de você.

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