Pessoal

Entrelinhas

Eu sempre fui uma pessoa prática. Como tal, nunca liguei muito para essa coisa toda de simbolismo. Achava bobagem. Que não tinha nada a ver. Que era frescura.

(mesmo assim sempre gostei muito do Natal – acho que é a época mais simbolista do ano. Mas só pelas luzes, pela comida e pelos presentes.)

Daí eu fui crescendo e percebi que se eu quisesse entender arte e literatura, ia ter de entender as entrelinhas. Isso é difícil porque não é binário, nem há sempre uma resposta certa. Mas por outro lado é mais fácil, porque você não tem obrigação de aceitar e sua imaginação pode fazer um bom trabalho. Assim, todas as obras acabam tendo a minha participação também.

O engraçado é que o simbolismo começou a participar da minha vida. Como quem passa de nível do inglês e começa a usar present perfect.

Meu tio faleceu ano passado. O inventário ficou pronto há um mês. Meu pai pegou a herança, comprou um netbook e dividiu o resto entre mim… e minha irmã. Meu pai é binário, não passou pela cabeça dele que a minha mãe não só existe como também foi a pessoa que mais cuidou do meu tio nesses anos que ele ficou aqui. Foi uma mãe pra ele também. Minha mãe, é claro, ficou chateada.

Mas ela não ficou chateada por não ter ganho uns trocados. Ficou chateada pelo simbolismo da coisa. Poxa, é um dinheiro que simboliza meu tio. E ela merecia.

Eu sabia que ela não ia aceitar se eu pegasse uma parte do meu e uma parte da minha irmã – e nem era isso o que importava de qualquer jeito. Então eu tive uma idéia: compramos um presente. Daqueles potes de lavar o pé da Polishop, sabe? (só que genérico, né?). Eu ainda tinha medo que ela recusasse, fiz uma carta, como se eu fosse meu tio, falando que ela era importante.

Ela chorou litros. Eu chorei também. Mas o simbolismo da coisa estava arrumado e agora eu não me sentia mais mal por ela não ter participado da divisão.

O tempo passou e eu fiz quatro meses de namoro com o Ray. A gente não poderia se ver no dia, porque ele tinha aula. Um amigo estava na Paulista (hohohoh eu trabalho perto da Paulista!) e disse “Cola aí, vamos lá pra Brigadeiro” e eu pensei “Não estava bem nos meus planos passar o dia que faço quatro meses de namoro com o Ray com outra pessoa que não o Ray” e respondi “Ahn, valeu mas eu vou fazer lição de inglês”.

Note: eu sinceramente não tenho motivos pra trair o Ray e já vi esse amigo em incontáveis outras ocasiões sozinha. E o dia que qualquer namorado meu falar “Você não vai ver fulano sem mim” está a 94,7% de chances de levar um pé. Porque nem meus pais filtram com quem eu vou sair, quem você pensa que é? O caso não é esse. O caso é que é um dia especial.

Que nem quando eu fiz um ano de namoro com o primeiro namorado e ele faltou na escola, então a gente não se viu.

Que nem quando eu fiz um mês de namoro com o namorado antes do Ray e ele ficou o dia todo jogando RPG e não deu tempo de me ver. Digo, aqui eu realmente não fiquei chateada. Mas é o máximo poder fazer mimimi com isso.

Enfim, hoje, mais crescidinha do que ontem (uia!), eu percebo que coisas que não faziam tanto sentido antes agora até que… dá pra entender. Minha mãe me falava muito isso: “Você é criança, você não entende”. Eu entendia o básico, o esqueleto. Hoje eu vejo que “são várias variáveis”, que a vida não é só isso, que tem uma série de fatores.

Tudo influencia. Tudo muda. Tudo é um pouco mais profundo do que uma primeira visão.

(esse post foi pessoal demais né?)

4 comentários em “Entrelinhas”

  1. Pode ter sido, não sei BEM ao que você se referia. Mas acredito se tratar de uma verdade universal. Tudo muda e tudo influencia. E essa questão simbólica é muito forte, é fato.

    Pra mim, pelo menos, é. Isso é herança de minha mãe. Por exemplo, ontem foi dia dos professores e minha mãe é professora (de criancinhas bonitinhas e barulhentinhas da 2ª série) e eu liguei pra ela à noite para dar os parabéns pelo dia. Aí ela disse: achei que você ia esquecer!

    E aí eu me lembrei como isso é importante pra minha mãe (assim como foi pra mim, tanto que quis ligar antes que pudesse me esquecer) e caso eu não tivesse ligado, ela não faria um grande caso sobre isso. Mas sei que ela também não estaria imediatamente ok com isso.

    E eu não sou muito diferente. Essa coisa de presente e coisas compráveis. Eu adoro dar presentes às pessoas. Tanto que chamo o Natal de Pretexto, simplesmente. Acho legal e adoro o Natal, mas a questão não é o Natal, exatamente. É o Pretexto. De poder dizer às pessoas que eu as amo e como elas são importantes pra mim. Tem gente que entende. Tem gente que não. Mas infelizmente só me cabe me expressar. O que cada um vai fazer com aquilo que recebe não é responsabilidade minha, é dessa pessoa e só dela. Porque tudo influencia, tudo muda. Todos temos um tempo para mudar e aceitarmos as mudanças.

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  2. Não tenho muito comentário, pq como vc disse, é um post bem pessoal, quase um desabafo.

    O meu comentário é: A tag do namorado é engraçada….hahahahaha XP (dá pra ir no programa da Márcia)

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