minhas pernas
Pessoal, Reflexões

Pré-preconceito

Olá, amigos, há quanto tempo. Sei que parei de postar no Compulsive mas tenho bons motivos pra isso: a depressão que não me larga, a vagarosa volta à vida, os artigos no TechTudo, o texto dos zirmilianos (que já está todo estruturado) e um outro texto que comecei a pensar no fim-de-semana mas ainda não escolhi como vai ser o final.

Enfim, não sei se essa coisa de ser escritora vai dar certo, mas juro que estou me esforçando para não me cobrar demais a ponto de por tudo a perder (uma especialidade).

Mas hoje aconteceu algo tão a cara do Compulsive que eu precisei voltar. Precisei abrir o MarsEdit para vocês e dar um olá.

No começo do verão eu resolvi que andar 1,8km (do metrô ao trabalho) era bastante cansativo no calor e resolvi sair de casa com vestido. Isso é bem comum para a maioria das pessoas, mas para mim exige um pequeno esforço todas as vezes, por mais que eu tente não ligar.

Eis o motivo: minhas pernas são diferentes. Uma é maior que a outra. Nasci assim, fazer o quê? “Pelo menos você pode andar” é a coisa que eu mais escuto. E acabo pensando assim, no final das contas.

minhas pernas

Estava calor demais pra discutir mais uma vez comigo mesma se deveria ou não, se estava bonita ou não porque mesmo se não estivesse, não poderia fazer absolutamente nada a respeito. Não é raspar os pêlos ou pintar o cabelo, é nascer de novo. Calor demais. Foda-se.

Saí toda pomposa (o vestido não era esse da foto, era um mais cumprido e decente) e esperei meu ônibus ouvindo música, como sempre. O ônibus chegou e eu entrei.

Enquanto estava na catraca entregando as moedas contadas pro cobrador (dinheiro sempre pronto, antes de entrar no ônibus, para não causar fila), um garoto muito loiro que estava sentado logo na frente me olhou. Mas olhou assim: ele olhou pras minhas pernas, subiu o olhar e deu um sorrisinho, que eu interpret– eu nem cheguei a interpretar, já me subiu aquela cólera mortal tão conhecida. Em seguida o dar-de-ombros e o “Oh, well, estou na rua afinal e as pessoas não estão acostumadas com isso”.

Tudo bem. Sentei. Me preparei psicologicamente para todas as outras vezes que isso ia acontecer durante o dia, coisas que sempre acontecem quando eu saio de vestido. Me condicionei a esquecer o colegial com toda a força (onde pessoas apontavam e riam) e a entender que as pessoas acham estranho mas que se dane. Calor demais. Nada que eu possa fazer a respeito.

Fui ao trabalho mais muitas vezes de vestido. Saí com meus amigos de vestido. Fui ver meu namorado com esse vestido da foto uns meses depois do ocorrido, e conheci amigos dele com essa indecência toda aí. Também vi o menino mais muitas vezes no ônibus. Sabe, depois de notar uma pessoa ela aparece na sua frente. A gente pega o mesmo ônibus na mesma hora. Achei que fosse um amigo meu de infância. Acho que não.

Passaram esses meses calorentos todos, do fim da primavera pra cá. A minha vida seguiu e fiz como todas as outras vezes: esqueci completamente o assunto.

Eis que hoje, voltando para casa, notei que já estava perto e fechei o Percy Jackson antes que passasse meu ponto (como sempre acontece). Minha coluna me obrigou a olhar para baixo, e não para frente. Eis que vejo um par de pernas… uma maior que a outra.

Não eram como as minhas – fiz questão de reparar bem. Uma era só mais gordinha que a outra, como se tivesse sido… malhada. A minha é uma mais cumprida que a outra também, e eu uso palmilha, mas aqueles tênis masculinos acomodavam pés na mesma altura e joelhos alinhados.

Subi os olhos.

Era o loiro.

Tapei minha boca, para não dar um gritinho surpresa. Quando ele sorriu, ele não quis me insultar ou algo assim… era um sorriso de solidariedade, por saber da coragem que você tem de ter para parar de se esconder de todo mundo. Era porque ele me admirou. E eu o julguei.

Foi por muito, muito pouco que não pedi desculpas pela cara fechada naquele dia. Não sei se ele notou. Não sei o que ele pensa. Não quis arriscar piorar alguma coisa que não existe.

Mas fiquei pensando: estamos tão acostumados a sermos mal-julgados que entramos em modo de defesa antes mesmo do ataque. E nem sempre é um ataque.

Quantas oportunidades estamos perdendo por medo de sermos nós mesmos e machucando quem não queria fazer mal algum?

Um comentário em “Pré-preconceito”

  1. Eu imagino que deve ter sido muito legal vc ter descobrido que aquele sorriso não era de escárnio, mas pelo sim pelo não, eu ainda prefiro manter a guarda alta. Pra me esconder do mal eu acabo evito o bem também. =/

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