Comecei a ler Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Achei o livro em uma crônica que fechava aquela revista Mente, que vi no consultório médico, pra descansar um pouco da leitura, na época, de Percy Jackson.
O livro conta a história de um futuro onde os bombeiros são responsáveis por queimar os livros. Todos os livros. Então eu vi essa passagem e ela explica o que eu estou sentindo, o que me deixa triste:
“A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é o que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”
Sabe? A gente já está no futuro. A gente já fica horas na televisão e na internet falando sobre nada e consumindo nada. A gente já não é mais ninguém e a felicidade é não refletir sobre isso. Quem pensa é esquisito. Doente. Triste.
O pior pesadelo de todo escritor de ficção científica aconteceu: em sua automatização, a raça humana perdeu sua individualidade.
Ray Bradbury tem uma das melhores visões nesse sentido – eu diria que, se ele fosse um vidente, teria acertado em cheio. Todo escritor de ficção científica é um pouco vidente, afinal.
E eu estava aqui, tentando organizar minhas ideias, lutando para conseguir pensar, para conseguir explicar o que sinto, tentando resumir isso de alguma forma para a próxima sessão de terapia e vejo pelos tumblrs da vida:
Se você não justifica sua resposta ou cita exemplos, está só copiando fatos. Não está pensando no que está fazendo. Está só entrando no ciclo do não-pense-e-seja-feliz, aprenda a apertar botões e problema resolvido, encontre um trabalho e tudo certo, desumanização.
A frase teve mais de 3700 notas, mas a dona do tumblr onde vi tem apenas doze anos. Eu entendo que a maioria das crianças e jovens pensem assim. Mas estamos ensinando errado. Estamos falhando com a única coisa que nos salva dos ETs do futuro. Estamos perdendo o amor, a criatividade, nós mesmos. As máquinas estão ganhando. Em breve, não vamos ter nada que nos defina humanos.
Se é que ainda temos.

Não pensar realmente me faz mais feliz. Apertar botões realmente resolve determinados problemas. Eu detestava as perguntas desse tipo e ainda detesto. É só que o que eu deixei de pensar foram coisas como o por quê de eu existir. Os botões que eu aperto, faço curso pra saber o que são. As perguntas com justificativa, não é porque eu não goste que não vá responder e procurar.
Do mesmo modo que é fácil entrar no piloto automático e fazer tudo roboticamente sem nenhuma personalidade ou inteligência humana, é muito fácil cair pro outro extremo e dizer que a sociedade não tem mais jeito, que as pessoas são todas horríveis; somos mesmo! Só penso que existe um meio termo melhor que o certo e o errado. Procuro minha felicidade, não fodo com a dos outros. Tentar fazer mais do que isso é muito bonito, mas extremamente utópico; e eu “já não sou mais tão criança a ponto de saber tudo”…
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Tava conversando uma vez com o namorado, tentando entender a minha tristeza e a gente chegou a conclusão de que eu sou muito obcecada pela verdade. Que ele também é, mas não liga, mas eu entro numa espiral descendente por causa disso. Que é por isso que eu fico tão mal quando me sinto burra ou incapaz de fazer alguma coisa, como se quisesse obter todo o conhecimento do mundo. Que se eu não superar isso, nunca vou superar ter abandonado a religião e que é por isso que tem gente que talvez nunca (NUNCA!) seria feliz sem religião.
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Opa, esqueci de concluir: talvez as pessoas precisem mesmo parar de pensar pra ser feliz. Sei lá, não condeno mais quem prefira a ignorância. Pensar dói, cansa, enlouquece.
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Eu acho que essa nova geração é uma geração de preguiçosos. Lógico que há quem escape disso, mas a maioria é assim.
Existe um filme também sobre esse livro, do Truffaut. Ótimo diretor, acho que vale a pena assistir. 🙂
haha
:*
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