Reflexões

Pseudointelectualidade

Essa coisa de ser pseudo-intelectual… Qual o problema mesmo? Quem diz “Odeio esses pseudo-intelectuais de merda”, por que acha que todos devem ser ovelhas? Como nasce um intelectual não for pela sua inicial pseudo-intelectualidade e interesse? Obviamente um pseudo-intelectual não pode saber tudo do mundo ao seu redor, portanto, o caminho natural é que deixe de ser “pseudo” e vire intelectual completo ou volte à alienação por preguiça. Mas devemos condenar tão brutalmente os esforços de quem procura mais assunto do que a mídia de massa traz?

Escrevi isso e depois fui à procura da definição-geral de pseudo-intelectual. Ri com as listas de “sintomas” e percebi que confundi as coisas: me referi a pseudo-intelectual querendo dizer, talvez, um pré-intelectual, um estudante da intelectualidade. O pseudo se acha mas não é: ele não se tornará intelectual de fato porque apenas a aparência superficial para com a sociedade lhe supre. Ele não quer saber ou questionar, de fato: quer apenas mostrar que sabe. A irritabilidade alheia surge, portanto, da mentira, superficialidade de seus conhecimentos e pensamentos e trivialidade de suas filosofias.

Ainda assim, curiosa que sou, me é difícil compreender: sendo a cultura popular de tão mais fácil e prazeirosa absorção, por que alguém lê contra-capas e orelhas de livros profundos apenas para se passar por conhecedor? Dez minutos de conversa bastariam para desmascarar qualquer um. Por que não ser sincero consigo mesmo e gostar do que gosta, de verdade e profundamente? Para ser aceito? Para ser odiado? Para se sentir superior à massa, sendo ainda pior que ela?

Tenho a genuína vontade de aprender e saudade do meio acadêmico. Não acho meus pobres conhecimentos e reflexões melhores ou piores que nenhuma outra. Não desprezo a cultura popular e de massa, sua música, dança e entretenimento: já o fiz muito, até notar que apenas gosto de coisas diferentes e que a cultura e as indagações fazem mal e bem somente a mim e que não cabe “salvar” a cultura. A cultura é reflexo do ser. Se o ser só consegue absorver uma dança rasa, ou se consegue absorver uma ópera, ambas são iguais: entretenimento puro.

Teríamos espaço, afinal, para uma massa pensante? Quantos produtos, quantos governos seriam necessários para agradar a todos, se a totalidade fosse individual? Claro que as excessões sofrem ao se perceberem sozinhas; mas mais fácil corrigir os “errantes” que fazer seis bilhões de mundos novos.

Largo o texto aqui para assistir Up! com meu pai. A vida é simples: a gente é que complica.

3 comentários em “Pseudointelectualidade”

  1. Lindo texto! Adorei a forma tranquila com que escreveu algo tão relevante. Gostei do “pré-intelectual”.
    Forte abraço!

    PS: Também estou tentando escrever um blog com coisas que considero relevante. Ainda tem pouca coisa, mas… vamos progredindo.

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  2. Marta Preuss;

    Na minha concepção, seria interessante que você revesse o texto nos seguintes pontos:

    Diferenciação entre “entretenimento” (Michel Teló e Crepúsculo, por exemplo) e “arte” (Chico Buarque e Notas do Subsolo, por exemplo).

    Diferenciação entre intelectual e pensador (assista uma entrevista de Sartre: http://www.youtube.com/watch?v=Iz76Q6O51bI). O intelectual é um pensador militante e, portanto, crítico. Neste sentido, só é possível ser um intelectual se sua abordagem (e mesmo cosmovisão) em relação à sociedade (e vou além: da realidade) é dialética. O conhecimento superficial, e mesmo o conhecimento científico positivista (lógica formal em Ruy Fausto) não dá conta de explicar os nexos obscuros dos objetos de estudo.

    Outro ponto: o leitor de orelhas de livros é o pseudo-intelectual, e não o intelectual.

    Se o pseudo-intelectual causa tanta cólera aos intelectuais, é em razão de sua postura “crítica” (entendida no sentido do senso comum). Pedantes que são, para demonstrar o que pensam saber, acabam por exercer a “critica” de forma alienadora.

    André Scholl

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